ADEUS BIÚS.

Adeus Biús. O boémio partiu para sempre

 12 Agosto 2009

Deixou-nos Biús, cancioneiro das noites de Mindelo. Não quis o destino que ele fosse tão longe na vida quanto na arte.


Adeus Biús. O boémio partiu para sempre

Coisas da vida. Uma vida curta, tortuosa, mas palpitante. Menino e moço, já cantava. Adulto, rumou para a América. Lá continuou a tocar e a cantar. Encontrei-o em Boston em 1993, um aceno de mão em direcção ao palco, mantenhas entre duas mornas.
 

Na América esqueceu Biús que o amor pode transformar-se num jogo de azar, perigoso e aleatório como a própria existência. Lá sofreu vicissitudes próprias de um artista sensível que ousou amar e perdeu. Adeus América, adeus família. Regresso brutal quanto ambíguo : contrafeito por deixar o lar americano, o trovador-boémio voltou sereno à terra-mãe que lhe abriu os braços, e disse: “aqui me tens de regresso!”

 

O povo das ilhas apreciou, e ninguém ousou perguntar: – partiu daqui tão contente, porque razão quer voltar? E pelas ilhas andou Biús - mais do que resignado, ainda mais contente do que partira. Violão ao peito, um grogue entre dois acordes, deixou-se embalar pelas noites musicais do Mindelo. Showman como poucos, dava gosto vê-lo e ouvi-lo, um charme irresistível rivalizando com um sentido de humor tipicamente mindelense.

 

E assim foi Biús esquecendo a longínqua América. Impossível porém esquecer a filha que deixou bebé e nunca mais voltou a ver desde 1996. Nas suas digressões musicais pela França, Holanda, Portugal, Biús sonhou com a outra banda do Atlântico, distante, inacessível. Kiara, 16 anos, uma pérola no coração de um pai atormentado, na carteira uma foto por prova. Kiara que mandou uma guitarra para Biús. Biús feliz, incontida ansiedade mesclada de orgulho : “Vamo-nos ver em breve”.

 

 

Deu-se esta conversa durante o nosso último encontro nos idos de junho, em Paris, seu fiel violão por companheiro. Vem daí comigo, disse-lhe, e fomos a um jantar musical entre amigos em Savigny-sur-Orge. O showman subjugou e deleitou os convivas numa espontânea prestação de alto nível. Uma noite memorável no qual não faltaram René Cabral, Mario Silva, Luis Lima... pena não ter sido gravada. Um whisky? Não, obrigado, nada de álcool forte. Eu agora, só vinho ou cerveja. No regresso, já dia claro, num falando-bocejando foi-me contando a sua excursão atlântica a cantar para turistas nórdicos num paquete de 12 andares, o mar lá em baixo a perder de vista até chegar ao Brasil. Vida de lorde entre devaneios d’América e tuninhas saltitantes. Mindelo é uma porta aberta ao mundo e a vida pode ser generosa.

 

Mas Biús amou mal a vida que, ingrata que fosse, lhe fez mercê e graça de algo que raramente dá ao comum dos mortais - fê-lo artista! - um dos mais profícuos da sua geração, um estilo próprio inspirado das noites boémias de Mindelo. Cheguei a confundi-lo com Gérard Mendes, amigo que o inspirou e que ele muito cantou.

 

Depois da soirée de Savigny, não voltei a vê-lo. Irrequieto como sempre, incapaz de se atardar no mesmo lugar, tal era Biús. Mochila às costas, um concerto aqui, uma noite cabo-verdiana acolá, andou por França, foi descendo até à Suíça ver as irmãs, subiu à Holanda, e falava em ir à Suécia. Peregrino sem rumo, sabias, meu amigo, que realizavas, a tua tournée de despedida? Regressaste às ilhas, um copo entre duas notas, depois dois, depois três, esquecendo - ou desprezando – o mal que te consumia. O boémio voltou novamente!

 

Para a tua última viagem, quiseste partir de Mindelo. Compreendo. Mas aos 43 anos!... Estava escrito, dirão uns. Viveu pouco mas viveu à sua maneira, dirão outros. Escrito ou não, mal avisado andaste, meu amigo, em virar as costas à Vida que te fez artista! Pior ainda em desafiá-la como ousaste fazê-lo. A Vida não suporta desprezo e ninguém sai incólume de um tal embate!

 

A notícia correu célere : o boémio partiu para sempre. Fiquei a saber que te chamavas José Mateus da Cruz, e pela primeira vez não te acompanhou o teu violão. Ildo Lobo, pensei! Dois destinos excepcionais cerceados na flor da idade. Fica a saudade do homem e do artista que não soube amar a Vida mas se dedicou de corpo e alma à melodia das ilhas. O povo das ilhas agradece. Vai com Deus.

 

David Leite

publicado por Paló às 11:14 | link do post | comentar